29/04/2022

Como a Belezinha apoia mulheres vulneráveis por meio da beleza inclusiva

Estou convencido de que a beleza pode ajudar as pessoas em situação de vulnerabilidade. Nada como melhorar a autoestima, recuperar a confiança e o bem-estar, bem como ajudá-las a encontrar seu lugar na sociedade.

E também convencido de acreditar que a individualidade e a singularidade podem andar de mãos dadas com um sentimento de pertencimento na sociedade e no local de trabalho.

Existem diversas formas de beleza quanto pessoas na Terra. O desafio é fornecer uma gama de experiências e oportunidades que reconheçam as necessidades individuais em sua diversidade. Parece ambicioso, mas é crucial.

Passadas de geração em geração, influenciadas pelo território e clima, as rotinas de beleza também estão inerentemente ligadas à tradição. O que se aprende dessas observações inspira a diversidade de ingredientes usados no mundo, além de criar inovações transculturais baseadas na ciência e na compreensão de uma beleza inclusiva.

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No Brasil, o setor de beleza movimenta aproximadamente R$ 100 bilhões por ano. Dados do G10 favelas revelam que na maior favela da cidade de São Paulo, Paraisópolis, há uma estimativa de 5.000 mulheres trabalhando com beleza. E, por outro lado, 20 mil necessitam de um trabalho/formação.

É nesse ambiente que nasceu o maior ecossistema de beleza do mundo. Iniciativa focada no apoio as mulheres de comunidade a realizarem seu sonho empreendedor e sua independência financeira através da Beleza! Devolvendo sua identidade, autoestima e a crença em um futuro melhor.

Em 2016, os empreendedores Mônica Jesus e Wallace Rodrigues Belezinha fundaram o Belezinha com a pretensão inicial de ser mais um dentre os 4000 salões de beleza instalados em Paraisópolis.

Com o passar dos anos e inconformados com o alto índice de desemprego e de alta vulnerabilidade de homens e mulheres da comunidade, o casal resolveu desenvolver um programa de treinamento e capacitação 50% mais rápido que as capacitações profissionais de mercado. Ali iniciavam-se as primeiras turmas de pessoas capacitadas a se tornarem profissionais de beleza.

Graças ao apoio do G10 favelas, em 2019, o projeto ganhou um espaço de 150 m2 no pavilhão de empreendedorismo do G10 tornando-se a maior escola de capacitação profissional em beleza e desenvolvimento humano dentro de uma favela.

Além da especialização técnica, a iniciativa estimula o desenvolvimento de habilidades interpessoais e oferece suporte na busca de estágios e empregos, bem como no desenvolvimento de projetos empreendedores.

De lá para cá, foram mais de 1.000 mulheres e homens capacitados e 40% direcionados aos principais salões de beleza do Brasil, como: Estúdio W, Loft, The Art Salon, Jaques Janine entre outros.

Hoje, o Belezinha conta com um especialista em Marketing de Experiência, com uma empreendedora serial, especialista em Inovação e construção de marcas e com um profissional referência em negócios de impacto social e ESG, co-fundador do hub CIVI-CO.

A operação atualmente está nas favelas Paraisópolis, Rocinha, Alemão e com expansão para Comunidade de Sol Nascente em Brasília e Nosso Moinho em Juiz de Fora. Não à toa, o Belezinha quer se tornar a maior startup social de beleza do Brasil focada em gerar transformação social através da capacitação do empreendedorismo e da geração de renda.

É importante destacar que os profissionais formados no Belezinha podem iniciar suas carreiras de formas diferentes: em escolas coworking que nos finais de semana funcionam como salão coworking, abrir uma franquia Belezinha, trabalhar em salões parceiros ou vender linhas de produtos de belezas através de lojas autônomas, e-commerce ou pela venda direta.

Estou convencido que o Belezinha acredita na beleza para uma vida melhor no Brasil.

Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

26/04/2022

Empreendedorismo da favela é como um rio digital

Durante os três dias do Expo Favela, constatei que investir em negócios de impacto é como um rio: flui com a energia de milhares de pessoas que compartilham seus valores positivos colocados em uso por líderes empreendedores. Ali, vindos da favela, da periferia, do beco, da ruela, da quebrada.

Um rio fluindo pode, ao longo do tempo, mudar drasticamente as paisagens. Um rio que flui é uma força persistente e contínua. Mas ver um rio fluindo não faz ninguém avançar. É preciso estar nele e fazer parte dele.

É preciso vislumbrar o empreendedorismo de impacto gerando mudanças positivas nos territórios e na sua gente. Um ecossistema que reconhece, por exemplo, os empreendedores e jovens da favela como partes interessadas e parceiros ativos, onde o poder cultural, político e econômico é apoiado e ampliado para tornar os negócios mais responsáveis, mais equitativos, mais inclusivos e mais imaginativos para o benefício das partes interessadas atuais e futuras.

Nada melhor do que jovens conectados à internet. Tal conexão representa uma força poderosa, tanto como inclusão produtiva tecnológica quanto como um importante segmento de consumo. No entanto, seu poder ainda não foi suficientemente reconhecido e está muito distante de resultados mais equitativos. 

A desigualdade de acesso à internet não só reflete a disparidade socioeconômica do país como ajuda a reforçá-la. Este é o alerta trazido pelo estudo “O abismo digital no Brasil”, realizado pela consultoria PwC em parceria com o Instituto Locomotiva, em 2021.

Há que se mudar isso. É preciso priorizar a compreensão das oportunidades de investimentos relacionados aos negócios digitais em torno dos quais os empreendedores estão se organizando. A construção de uma agenda de aprendizado de tecnologia responsável ajudará a desenvolver a compreensão de quais futuros de tecnologia os jovens desejam ver e o que os está impedindo. 

Se de fato queremos investir em empreendedores e negócios de impacto como líderes, construtores e fabricantes de soluções digitais, precisamos entender com o que eles se importam e o que os impede de perceber a mudança pela qual estão trabalhando.

A perspectiva inicial é reconhecer que a tecnologia tem um impacto diferencial sobre os humanos que dependem dela, independente de classe e status socioeconômico, raça, gênero, habilidade, identidade religiosa, idade ou geração. Como em tantas áreas – da economia ao ambiental, ao futuro do trabalho – a tecnologia tem tido impacto único sobre os negócios que amadurecem ao lado dela.

Os jovens da periferia estão numa posição única para serem líderes de negócios com uso da tecnologia e da cultura da internet, pois o mundo abalado pela pandemia clama uma ressignificação das relações coletivas com o digital, além de questionar os negócios tradicionais. 

A perspectiva de chegada é antever que esses jovens não são apenas nosso futuro e, em alguns casos, líderes de negócios digitais, mas os formuladores de um novo status quo de políticas que promovem o desenvolvimento mais humano. Herdarão os problemas de hoje e decretarão as soluções de amanhã. E em questões complexas, como política, economia, clima e justiça racial, muitos já demonstram uma tendência a exigir mais equidade, pertencimento e responsabilidade.

Para os jovens conectados, principalmente aqueles mais desiguais, o poder cultural geralmente está na capacidade e na tendência de usar plataformas digitais para mudar o viés das conversas. Os nativos digitais estão conscientes do complexo papel que a tecnologia desempenha em suas vidas cotidianas, refletindo, participando e moldando sua própria cultura da Internet.

Repetidamente, durante a pandemia, os empreendedores sociais, com ajuda dos jovens de seus territórios, usaram plataformas de mídia social para negociar seus pontos de vista e mobilizar ações sociais – desde a disseminação do aprendizado, criação de mutirões de distribuição de alimentos, captação de recursos até a formação de novos comportamentos de consumo.

O investimento estratégico e responsável em negócios digitais de periferia é a base para reconstruir territórios mais inclusivos. Nas palavras do idealizador da expo favela, Celso Athayde, favela não é carência, mas uma grande potência. No Brasil, as favelas produzem e consomem R$ 120 bilhões por ano. Sim, o empreendedorismo da favela é como um rio digital.

Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

13/04/2022

Por que a micromobilidade é o futuro

A eletrificação começa a desempenhar um papel importante na transformação do setor de mobilidade, além de apresentar grandes oportunidades de investimentos ambientalmente sustentáveis, embora o ritmo e a extensão da mudança sejam diferentes.

O ponto de inflexão na adoção de veículos elétricos de passageiros ocorreu no segundo semestre de 2020, quando as vendas e a entrada de veículos elétricos cresceram nos principais mercados, apesar da crise econômica causada pela pandemia do Covid-19, de acordo com o McKinsey Center for Future Mobility.

Considerando que a micromobilidade veio para ficar, retomo a pauta. Não há dúvidas de que os meios de transportes com menos de 500 kg e motorização elétrica transformarão a indústria automotiva e ajudarão a descarbonizar o planeta. Ouso afirmar que já estão!

Se aquele barulho típico dos aglomerados urbanos é o som tradicional do que seja mobilidade, a sua ausência é o sinal da matriz elétrica chegando.

Embora saibamos a persistência dos desafios para os veículos elétricos, as oportunidades de mudanças estão à frente. Isso é particularmente evidente nos territórios adensados, como as cidades, onde emissões, congestionamentos e segurança são questões importantes hoje. Se tal quadro continuar, os problemas de mobilidade se intensificarão à medida que a população aumente.

Em resposta, investimentos em micromobilidade estão gerando uma gama impressionante de inovações para as cidades, como:

  • mobilidade como serviço
  • gerenciamento avançado de tráfego e sistemas de estacionamento
  • soluções de compartilhamento de carga
  • centros urbanos de distribuição
  • transportes em duas ou três rodas

Os investidores não podem ignorar as tendências tecnológicas capitais, principalmente aquelas que atendem o desejo dos consumidores durante os seus deslocamentos. Para obter uma vantagem competitiva, deve-se investir com sabedoria.

De acordo com o McKinsey Center for Future Mobility, atualmente, temos oportunidades de transformar a maneira como nos deslocamos, sendo um vetor que resulta mudanças em três áreas: regulamentação, comportamento do consumidor e tecnologia.

Em relação à regulamentação, é importante que governos e cidades introduzam normas e incentivos, acelerando a mudança para a mobilidade sustentável. Além de estimular a redução do uso e o congestionamento de veículos particulares, ofertando maior apoio a modos de mobilidade alternativos, como bicicletas.

Nessa direção, a cidade de Fortaleza experimenta uma grande mudança. Há evidências de que a integração intermodal – ônibus e bicicletas compartilhadas e integradas – tem reduzido em 40% o tempo que o usuário destina ao seu deslocamento diário: casa – trabalho – casa. Além disso, o bilhete único contempla um único valor tanto para integrar e compartilhar os modais.

O comportamento e a conscientização do consumidor estão mudando à medida que mais pessoas aceitam modos de mobilidade alternativos e sustentáveis. Ainda sobre Fortaleza, as viagens com bicicletas compartilhadas aumentaram 60% ano a ano, sendo que o sistema foi implantado em 2014. O que se observa na capital do Ceará é que os consumidores estão se tornando mais abertos a opções de mobilidade compartilhada e integrada.

E, finalmente, tecnologia. O setor está em modo acelerado. A velocidade da inovação em tecnologia automotiva acompanha o desenvolvimento dos novos conceitos de mobilidade elétrica, conectada, autônoma e compartilhada. A indústria atraiu mais de US$ 400 bilhões em investimentos na última década, com cerca de US$ 100 bilhões vindos desde o início de 2020. Todo esse dinheiro tem como alvo empresas e startups que trabalham em micromobilidade elétrica, veículos de conexão e tecnologia de direção autônoma.

As inovações tecnológicas, por certo, ajudarão a reduzir os custos dos veículos elétricos e tornarão a micromobilidade compartilhada uma alternativa real.

Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

06/04/2022

Expo Favela coloca a favela na agenda do asfalto

A favela está de pé e continuará em pé. Com mais de 120 anos, os assentamentos informais da cidade do Rio de Janeiro são alguns dos mais antigos do mundo moderno. A informalidade possui uma história surpreendentemente rica, onde sua gente se orgulha cada vez mais e mantém o instinto de preservação, crescimento e desenvolvimento econômico.

Essa visão das favelas como comunidades dignas de reconhecimento e preservação contrasta fortemente com as presunções negativas comumente feitas sobre elas, seja pela mídia, organizações de desenvolvimento, governos locais, investidores ou acadêmicos, entre outros.

No entanto, a má compreensão das favelas no meio das organizações de desenvolvimento, dos investidores e dos governos locais é a mais prejudicial de todas, porque essas são as instituições que de fato têm um impacto direto nas políticas que afetam os moradores, seu desenvolvimento, sua sensação de segurança e sua mobilidade ascendente, diz o economista peruano Hernando de Soto.

Com o passar dos anos, os assentamentos informais de algumas regiões do Brasil deixaram de ser favelas caracterizadas principalmente por condições de miséria e insalubridade, ou por construções precárias e moradias improvisadas. De geração em geração, os moradores, em sua maioria, suplantaram o que antes eram condições de vida mínimas e investiram o máximo possível em suas casas e bairros, gerando uma economia própria e bastante dinâmica.

Isso significa que as favelas vivem em um estado de limbo, em teoria reconhecidas como merecedoras de direitos e investimentos, mas não na prática – trazendo de volta a terminologia da informalidade.

É bom que se diga que na diversidade dos aglomerados urbanos no Brasil, há uma distinção clara entre favela e asfalto. O termo local para as áreas atendidas – tipicamente de classe média e alta – da cidade é asfalto (isso, literalmente, “asfalto”), que é justamente o oposto a “favela”.

Dentro da dualidade de visão de mundo, conceituar “asfalto” como substituto da cidade formal implica duas coisas: (1) formal é investimento em infraestrutura; e (2) infraestrutura, particularmente o asfalto, é inerentemente boa.

Por sua própria natureza e por estarem justapostas ao asfalto, as favelas são caracterizadas pela ausência de serviços, e seus moradores são condicionados a acreditar que o investimento em infraestrutura, principalmente o asfalto, é um ideal a ser buscado.

É nesse ponto que nasce a Expo Favela, uma iniciativa ousada e inovadora de um dos maiores empreendedores sociais do Brasil, Celso Athayde, CEO da Favela Holding. Será um evento disruptivo, um encontro de oportunidades para as favelas e o asfalto.

Durante três dias – 15, 16 e 17 de abril – cerca de 300 representantes de fundos de investimentos devem conhecer os 350 empreendedores selecionados em favelas de todo o Brasil. Assim, conectar investidores com os empreendedores da favela é o objetivo da primeira edição da Expo Favela.

Em outras palavras, a Expo Favela irá trazer a favela para o asfalto. Como? Com uma feira de negócios cujos expositores são empreendedores e startups da favela. O propósito maior é dar visibilidade aos negócios de impacto e, assim, promover um palco para o encontro com investidores que possam acelerar os negócios.

Para Celso Atahyde, a favela não é carência, mas uma grande potência, uma forma de corrigir o olhar recheado de compaixão equivocada e preconceito com uma região que produz e consome R$ 120 bilhões por ano. Para colocar na agenda a favela e sua movimentação, o local escolhido para o evento foi o WTC, espaço que está no epicentro econômico de São Paulo, onde circula boa parte do PIB brasileiro.

Ainda como destaque, logo no primeiro dia, haverá a divulgação de uma pesquisa inédita realizada pelo Data Favela sobre o cenário do empreendedorismo na favela, com dados apresentados por Celso Athayde e Renato Meirelles.

Há uma certeza antecipada: as favelas são locais produtivos, vibrantes, únicos e emocionantes, de produção cultural e bem-estar social. E isso não acontece apesar de sua natureza informal, mas por causa da sua gente.

Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

30/03/2022

Conceito de fazenda urbana ganha força no Brasil

O verde da agricultura está agora nas cidades. A agricultura urbana está mudando a paisagem nos aglomerados humanos: há milhares de operações de pequena escala proliferando, como os cultivos de plantas no nível do solo ou em telhados e terraços. Esse movimento sustentável, apesar de não ser reconhecido por muitos como uma atividade formal, é praticado por cerca de 800 milhões de pessoas em todo o mundo e ajuda cidadãos de baixa renda a economizar na compra de alimentos, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A horticultura urbana ou fazenda urbana é o cultivo de hortaliças, frutas, plantas aromáticas ou ervas medicinais, entre outras, ao ar livre ou em espaços fechados. Essa prática ocorre dentro e ao redor das cidades, juntamente com outros exemplos de agricultura urbana e periurbana, como aquicultura, pecuária e silvicultura, que fornecem peixe, carne, laticínios e madeira para a comunidade.

É bom que se diga que as fazendas urbanas como exemplos de sustentabilidade da cidade surgiram na década de 1960, vinculadas ao ambientalismo e aos movimentos em prol de um mundo mais natural, mais justo e mais solidário. Grupos como o US Green Guerrillas foram pioneiros em transformar a agricultura urbana num caminho para a autogestão, inclusão social e uma vida comunitária próspera.

Desde então, as fazendas urbanas tornaram-se muito mais do que hortas. Tornaram-se espaços de lazer, relaxamento, educação ambiental e vivência de terapias curativas em um ambiente natural dentro das cidades.

No Brasil, esse modelo está presente na BeGreen. A inspiração começou em 2014, quando Giuliano, um dos empreendedores, visitou o centro de pesquisas em produção indoor de hortaliças no Massachusetts Institute of Technology – MIT. Pedro e Giuliano descobriram que o campo também era um lugar onde a inovação tinha um grande poder de transformação. Como laboratório desse sonho, em 2015 nasceu a primeira fazenda da BeGreen em Betim, na região metropolitana de BH.

Em 2017, a BeGreen criou a primeira fazenda urbana da América Latina. Construída em Belo Horizonte (MG), no Boulevard Shopping, a iniciativa chamou a atenção para a produção de alimentos livres de agrotóxicos com baixa utilização de água e emissão de carbono reduzida.

De lá para cá, a empresa se tornou uma rede de fazendas urbanas com outras unidades em São Bernardo do Campo (SP), na fábrica da Mercedes-Benz; Rio de Janeiro (RJ), no Via Parque Shopping; Osasco (SP), na sede do iFood; Campinas (SP), no Parque D. Pedro Shopping; em Salvador (BA), no Shopping da Bahia; e agora em Goiânia, no Passeio das Águas Shopping.

A consolidação do negócio como uma solução inteligente de sustentabilidade é diretamente proporcional ao seu desafio de expandir para as grandes cidades do Brasil.

A agtech BeGreen é um espaço para cultivar experiências e uma vida mais sustentável, produzindo hortaliças sem prejudicar o meio ambiente, compartilhando conhecimento, comendo o que faz bem e comercializando alimentos agroecológicos.

Plantando e colhendo dentro da cidade, a empresa reduz a distância entre os alimentos e o consumidor final. Sem a necessidade de transportar as hortaliças do campo até grandes centros urbanos, é possível eliminar as perdas que acontecem durante essa jornada.

O impacto gerado pela agtech é relevante. Atualmente, a empresa produz cerca de 20 toneladas de alimentos por mês. À guisa de ilustração, somente no primeiro ano de operação da BeGreen:

  • 1.068.285 pessoas foram beneficiadas diretamente;
  • 94.038 pessoas, indiretamente;
  • 420.012 hortaliças foram cultivadas, o equivalente a 39,9 toneladas.

Considerando apenas o impacto da produção de 420 mil pés de hortaliças, isso significa que:

  • Houve uma retirada de 1,18 toneladas de CO2 do meio ambiente;
  • Houve uma economia de 445.900 litros de água na irrigação;
  • Não houve desperdício de água (aproximadamente 273.000 litros de água); e,
  • Houve uma redução de 45% do custo de produção frente à produção convencional.

Assim, a BeGreen faz parte da construção de um Brasil mais sustentável, onde todos tenham acesso a uma alimentação mais saudável, acreditando que é possível produzir alimentos frescos de forma responsável, com mais sabor e zero desperdício.

Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

23/03/2022

Como o investimento de impacto deixa a sua marca no mundo

Depois de décadas sendo confundido com a filantropia, o investimento de impacto está finalmente se tornando dominante. A maioria das grandes empresas de gestão de ativos está lançando fundos e estratégias de investimento de impacto, mas ainda sem padrões mais fortes, sem muita diversidade de atores e sem foco mais amplo.

De fato, há um consenso de que a economia precisa ser ressignificada. Não à toa, em 2019, a poderosa Mesa Redonda de Negócios nos Estados Unidos lançou um apelo aos CEOs corporativos para que façam projeções de seus impactos sobre todos os stakeholders, não apenas sobre seus acionistas.

Da mesma forma, não se tem expectativa de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) sem a mobilização do capital privado para complementar o financiamento público. O investimento de impacto faz parte da resposta.

A ideia não é nova. Já na década de 1990, alguns investidores arrojados reconheceram que apenas excluir categorias ruins de investimentos de suas carteiras não era suficiente. Eles se concentraram na conexão entre retornos superiores e como uma empresa gerencia questões ambientais, sociais e de governança (ESG). As evidências dessa estratégia sugeriram que tratar bem os funcionários, buscar a diversidade na diretoria e gerenciar a pegada ambiental de uma empresa pode, de fato, ter um impacto positivo nos retornos financeiros.

No início dos anos 2000, vários investidores em mercados emergentes reconheceram que outra ampla mudança estava em andamento. Surgia aí uma nova geração de empreendedores: são construtores de negócios com a intenção explícita de resolver problemas sociais e ambientais prementes. E logo ficou claro que investir em tais empresas poderia ter impacto no mundo real e trazer retornos financeiros além do esperado.

Após quase duas décadas de árdua labuta, esses negócios continuam crescendo, ganhando confiança e credibilidade nos mercados. O que antes era nicho agora está se tornando uma tendência dominante.

A adesão ao atual e tradicional sistema econômico representa uma traição às gerações futuras devido à sua insustentabilidade ambiental. Outra razão é que os millennials e a Geração Z não querem mais trabalhar para empresas que só possuem como valor a maximização do retorno para o acionista. Eles também não têm interesse em investir em negócios desse tipo, nem em consumir o que essas companhias oferecem.

E, por último e não menos importante, executivos e investidores começam a reconhecer que seu próprio sucesso de longo prazo está intimamente ligado ao de seus clientes, funcionários e fornecedores.

Assim, a corrida do capital para o investimento de impacto requer padrões mais elevados de conformidade dos negócios.

Em primeiro lugar, os negócios precisam de modelos consistentes e padronizados para avaliar o alegado impacto gerado. Colocar um logotipo “ODS” ou “boas práticas ambiental, social e governança – ESG” na frente do seu fundo não o torna um investidor de impacto.

Resultados de impacto devem ser acompanhados de rigorosas diligências, com requisitos claros de avaliação, consultas com os beneficiários finais, e relatórios exatos e verificados de forma independente.

Em segundo lugar, os investidores devem se comprometer a recrutar negócios próximos aos problemas que estão sendo abordados. Além disso, não se tem dúvida de que equipes diversas tendem a superar as homogêneas. Proprietários de ativos, gestores de fundos e empreendedores devem ser representativos das comunidades atendidas.

E, finalmente, à medida que os investidores alocam recursos para novas estratégias de investimento sustentável e de impacto, eles também devem levar em conta os efeitos potencialmente negativos do restante de seus portfólios.

Em vez de ser uma nutritiva folha de figueira, o investimento de impacto deve ser como a ponta fina de uma cunha, abrindo espaço para investidores tradicionais aplicarem avaliações de impacto a todos os ativos em seus portfólios. Se eles realmente querem deixar sua marca no mundo, não há alternativa.


Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

16/03/2022

Fortaleza é exemplo de inclusão na mobilidade urbana

Há uma tendência global na direção das cidades alcançarem uma rede de transporte mais sustentável e equitativa para todas e todos. No entanto, a presença das mulheres em cargos de liderança ainda é mínima no setor de transporte. Mesmo quando ocupam cargos de liderança, elas continuam lutando contra os mesmos estereótipos que dificultaram a garantia de seus cargos.

É sabido que mulheres e homens têm diferentes usos de transporte devido a diferenças em fatores sociais, econômicos e físicos. As mulheres, quase sempre, têm a responsabilidade primordial na casa de cuidar dos filhos e do trabalho doméstico. Ademais, se deparam com padrões de uso do tempo e características de emprego diferentes em relação aos homens e, principalmente, com menos recursos financeiros.

O que se percebe é que a mulher é mais propensa a caminhar e usar o transporte público como meio de mobilidade. Assim, a modelagem de viagem delas é mais complexa do que a dos homens. Essa diferença mostra as consequências adversas quando o planejamento de transporte se concentra principalmente no deslocamento.

À medida que mais mulheres estão entrando nos papéis de tomada de decisão, as redes de planejamento de transporte devem espelhar essa mudança.

É forçoso reconhecer a necessidade de se implementar políticas destinadas a melhorar a igualdade de gênero, como favorecer caminhadas, ciclismo e transporte público coletivo e seguro. Em outras palavras, privilegiar o design centrado nas pessoas e a inclusão de gênero no desenho de mobilidade urbana.

Em Fortaleza, no Ceará, é possível ver avanços na descarbonização do transporte e na transformação do espaço público, assim como o urbanismo centrado nas pessoas.

Seguindo o conceito inovador e ousado de Micro Parque, a cidade de Fortaleza transforma áreas degradadas em pequenos parques urbanos, unindo meio ambiente, primeira infância e educação. Onde antes havia tráfego intenso, hoje há espaço para relaxar e socializar.

O plano de mobilidade sustentável promove o ciclismo e o transporte público. A cidade planeja aumentar as ciclovias de 370 para 500 km até 2024.

Especialistas apontam que tão importante quanto ter uma vasta malha cicloviária é, também, torná-la acessível. Isso porque, em Fortaleza, as bicicletas não são usadas apenas como esporte ou lazer, mas principalmente como forma de se locomover para o trabalho ou escola.

Na acessibilidade às ciclovias, Fortaleza volta a sair na frente das outras cidades brasileiras. Segundo os dados da plataforma MobiliDADOS, atualizados em 2021, a capital cearense possui 47% da população morando próxima às ciclovias.

Outro ponto de destaque é um plano de ação para incentivar que 75% das vias da cidade tenham velocidade máxima de 50 km/h, com instalação de radares e melhoria da sinalização.

Esses projetos, hoje políticas públicas, são bons exemplos de uma mobilidade equitativa, pois beneficiam mulheres, idosos, crianças e moradores de baixa renda que vivem em áreas periféricas mas se deslocam regularmente para bairros centrais.

O que o poder público tem feito em Fortaleza é priorizar as pessoas. A mudança cultural na mobilidade já está acontecendo. Este é um momento de oportunidade e não de barreiras, e se houver ainda mais ambição e vontade política, a mudança deixa de ser orgânica e será exponencial.

Como Fortaleza viu um aumento significativo no ciclismo durante os últimos anos, a cidade aproveitou essa oportunidade para agregar infraestrutura para pedestres e ciclistas, principalmente recuperando o espaço da rua anteriormente dedicado a carros particulares.

O mundo da bike há muito considera a diferença de gênero como um fator excludente. A principal questão é a segurança – as mulheres se mostram mais inseguras e isso costuma as impedir de andar de bicicleta na mesma proporção que os homens. Infraestrutura de alta qualidade para bicicletas ajuda a diminuir a diferença de gênero.

Os últimos governos de Fortaleza ampliaram ainda mais o sistema público de compartilhamento de bicicletas para áreas periféricas da cidade, proporcionando aos cidadãos de baixa renda uma alternativa de transporte acessível e eficiente para se locomover.

Por fim e não menos importante, Fortaleza entende como estratégico o combate ao assédio e à violência que as mulheres enfrentam no transporte público. Desde 2018, a plataforma digital Nina é parceira do sistema de transporte urbano na proteção e na educação ao assédio sexual nos ônibus, paradas e terminais públicos.

O Plano de Gênero e Mobilidade da cidade não apenas aborda a desigualdade de gênero no ambiente de transporte e mobilidade, mas também os dados de mobilidade e conscientização sobre questões de gênero, como assédio nas ruas.

É imperativo introduzir uma perspectiva de equidade na agenda de mobilidade. O caminho para preencher a lacuna começa com inclusão e empoderamento. O importante é acertar o alvo sem perder o ponto.


Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

09/03/2022

Como o blended finance impacta os ODS e se integra com o ESG

Há uma lacuna de financiamento para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU até 2030, estimada em mais de US$ 2,5 trilhões por ano. Aumentar o investimento do setor privado em países em desenvolvimento, como o Brasil, por exemplo, é essencial e estratégico para aterrar esta lacuna de financiamento. O uso de fundos públicos e filantrópicos para mobilizar investimentos privados é uma forma eficaz de atrair recursos financeiros que de outra forma não seriam canalizados para os países em desenvolvimento.

A mistura de capital ou capital híbrido (ou blended finance) é a tendência. No entanto, questões sobre adicionalidade, subsídio mínimo ou lavagem de impacto surgem rapidamente para os profissionais. Os princípios do blended finance – elaborados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) – fornecem orientação a esse respeito, por exemplo, que a combinação é limitada no tempo e evita distorções de mercado.

Ainda, de acordo com a OCDE, cinco aspectos podem ajudar a operacionalizar e usar o financiamento híbrido para gerar impacto:

  • Assistência técnica e financiamento em estágio inicial para apoiar ideias inovadoras;
  • Chamadas competitivas para aumentar a relação custo-benefício;
  • Fundos catalíticos agrupados para obter melhores acordos financeiros combinados e alcançar escala;
  • Relatórios de impacto de qualidade para mostrar a diferença dos instrumentos de operação;
  • Apoiar relatórios de mercado para fornecer transparência e benchmarking como um bem público.

Blended finance tem no seu DNA a peculiaridade de se tratar de uma finança sustentável. Mas o que é finança sustentável? O financiamento sustentável refere-se à integração de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) nos serviços financeiros. Uma abordagem que vai além do foco tradicional em lucros e perdas para considerar questões como as empresas respondem à crise climática e como tratam funcionários, clientes e acionistas, entre outros.

Cada vez mais, os investidores utilizam essa estratégia para avaliar riscos financeiros, identificar oportunidades e expressar seus valores.

E, por que as finanças sustentáveis são importantes? As investidoras de serviços financeiros desempenham um papel fundamental na transição para uma economia e uma sociedade sustentáveis. O financiamento sustentável desbloqueia o investimento para atividades econômicas e projetos que proporcionam melhores resultados para as pessoas e o planeta. Dessa forma, tem um papel fundamental a desempenhar no financiamento dos ODS.

A integração de fatores ODS e ESG nas decisões de investimento também pode ajudar a identificar riscos e oportunidades que a análise tradicional pode não revelar. Isso pode garantir investimentos à prova de futuro e, em alguns casos, aumentar os retornos.

E, finalmente, o que é o financiamento alinhado aos ODS? O investimento em ESG se concentra nas boas práticas e condutas operacionais: a empresa produz bens de maneira ambientalmente responsável? Está tratando bem seus trabalhadores? Envolve-se positivamente com a comunidade?

As finanças alinhadas aos ODS estão mais preocupadas com o propósito: quais produtos são produzidos e para quem? Eles ajudam ou prejudicam a sociedade? Eles consideram vários benefícios positivos, entre os resultados sociais, ambientais e relacionados à governança? Há uma consciência crescente da importância dos ODS como uma estrutura para finanças sustentáveis.

Muitos já divulgam informações sobre seu desempenho nos ODS juntamente com seus relatórios ESG. O que se percebe agora é que investidores tradicionais também estão se comprometendo com essa estratégia, reconhecendo seu potencial para abrir oportunidades e enfrentar desafios globais.


Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

04/03/2022

Investimento de impacto é crucial na economia circular da América Latina e do Caribe

Para criar mudanças duradouras, devemos mudar a economia para criar resultados positivos. O atual sistema econômico global é autodestrutivo. De um lado, o governo tenta resolver os problemas tributando a todos, do outro, os investidores e as empresas se concentram apenas em ganhar mais dinheiro.

Até o momento, esse modelo não nos serviu bem. Basta que se veja o tamanho da nossa desigualdade social e ambiental. O investimento que gera impacto é a direção da nova agenda de desenvolvimento do planeta. Transforma o setor privado de poluidor e impulsionador da desigualdade em uma força poderosa para o bem. Otimizando o risco-retorno-impacto, empreendedores e empresas criam novos produtos e serviços que melhoram a vida das pessoas e das relações com seus territórios.

Dada a escala dos desafios sociais e ambientais que se enfrenta hoje, o governo necessita que as empresas desempenhem um papel central no desenvolvimento de soluções inovadoras. É essa a direção para os investimentos de impacto, onde a decisão sobre consumo e capital fica baseada em risco-retorno-impacto.

A direção para o investimento de impacto real representa uma mudança fundamental na forma como nossa economia funciona – uma mudança de ver negócios e dinheiro como puramente sobre lucro para entender que eles são necessários para trazer as soluções do que precisamos. O setor privado fazendo a sua parte na criação de novas soluções, e os governos adotando novos caminhos para lidar com grandes problemas.

Pobreza, falta de educação, desemprego, envelhecimento da população e destruição ambiental são apenas alguns dos grandes desafios da atualidade. Apesar dos esforços, os governos não conseguiram encontrar soluções necessárias, principalmente porque o investimento é arriscado. O apetite pela inovação não está no DNA do governo. Agora, é importante e estratégico impulsionar o investimento de impacto.

Na direção do investimento de impacto, o momento se torna propício para a transição de uma economia linear para uma economia circular — uma economia que, em sua concepção, adota um modelo econômico de produção e consumo que elimina resíduos e poluição, circula produtos e materiais e regenera a natureza. Uma economia circular oferece um modelo para a criação de prosperidade econômica de longo prazo e contribui para diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O papel do governo na criação de mudanças sistêmicas é crucial. No Brasil, há obstáculos. Basta ler o documento “Economia circular na América Latina e no Caribe: Uma Visão Compartilhada”.

Segundo Luisa Santiago, líder da Fundação Ellen MacArthur na América Latina, “…Atualmente, o governo brasileiro se distancia de uma tendência mundial e caminha na contramão de uma economia circular e da ideia mais ampla que ela propõe, que é a regeneração da natureza, a eliminação dos resíduos e da poluição a circulação de materiais e produtos e o consequente enfrentamento de desafios mundiais como as mudanças climáticas e perda da biodiversidade…”.

É oportuno registrar que a Fundação Ellen MacArthur é uma das lideranças da Coalizão de Economia Circular para a América Latina e o Caribe e que conta com 16 países membros, representados por seus governos, dispostos a cooperar em direção a um desenvolvimento econômico de baixo carbono. A má notícia é que o Brasil não é um deles.

A boa notícia é que no Brasil já existem evidências de uma atividade econômica inovadora e regenerativa com investimentos privados de impacto. A Natura Cosméticos e a Beraca, por exemplo, estão valorizando os nossos recursos naturais e contribuindo com a conservação dos biomas ao comercializar ativos da biodiversidade brasileira e manter um comércio justo com as comunidades locais.

Vale lembrar que o Grupo Balbo e a Rizoma Agro estão produzindo alimentos com práticas que regeneram a natureza em grande escala, mostrando que é possível produzir alimentos de qualidade e em grande quantidade favorecendo a natureza.

A Klabin criou novas práticas de produção que contribuem com a biodiversidade em vez de prejudicá-la.

Na moda, grandes varejistas já colocam no mercado produtos alinhados a uma economia circular, como é o caso das Lojas Renner, com uma grande gama de peças feitas de fios reciclados, movimentando toda a sua cadeia produtiva têxtil para torná-los possíveis.

A C&A oferece linha de produtos certificados Cradle to Cradle, que preservam o solo e a água em todo o seu ciclo de vida. Ambas as varejistas contam com sistema de logística reversa de roupas usadas para reuso e reciclagem em escala.

Nos eletrônicos, a marca HP e a fabricante Flex fundaram a Sinctronics, empresa para fazer logística reversa e reciclagem de equipamentos eletrônicos, mantendo-os em uso em novos produtos.

A ReUrbi vai além e remanufatura equipamentos eletrônicos recolocando-os no mercado em sua linha de produtos Remakker.

Exemplos desses negócios com investimentos de impacto permitem imaginar como é crucial o modelo da economia circular para o nosso Brasil — no qual os recursos naturais sejam usados e regenerados em vez de exauridos e no qual culturas tradicionais e modernas possam se unir para produzir benefícios sociais, econômicos e ambientais positivos para a natureza.


Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.

24/02/2022

Mulheres estão por trás das mudanças nos investimentos ESG

Um dos efeitos dos turbulentos anos de 2020 e 2021 é que eles transformaram a forma como muitos de nós olhamos para dinheiro e riqueza. A convergência de grandes crises fez com que quase todos reavaliassem o que pensávamos saber em todos os aspectos de nossas vidas: desde a pandemia nos seus níveis socioeconômicos e a crise econômica que causou; até o aumento dramático nos efeitos das mudanças climáticas.

As prioridades mudaram. Permanentemente.

O mesmo tem acontecido com o investimento. Como resultado, o investimento ESG baseado em valores – voltado para Meio Ambiente, Social e Governança – assumiu o centro do palco e superou outras estratégias de investimento. Anteriormente, considerada uma estratégia de investimento de nicho – “investimento socialmente responsável” ou “investimento sustentável” – o ESG é agora a estrela, e as mulheres são uma parte fundamental dessa relevância.

A Moody’s escreveu em 2021 que “os investimentos com temas ambientais, sociais e de governança (ESG) se tornaram uma das categorias de investimento com melhor desempenho em últimos anos, abrindo caminho para o crescimento contínuo desta estratégia.”

O relatório do US SIF: The Forum for Sustainable and Responsible Investment apontou que US$ 17,1 trilhões estavam em ativos investidos de forma responsável nos EUA no início de 2020, um aumento de 42% em relação a apenas dois anos antes.

As mulheres são conhecidas há muito tempo por tomar decisões financeiras com base no que é melhor para seus filhos e sua família. Atualmente, também estão cada vez mais alinhando seus investimentos com os seus propósitos, pelo que sentem ser melhor para sua comunidade, seus vizinhos e o planeta.

Quase metade das mulheres americanas são as principais provedoras de suas famílias, um aumento de quase quatro vezes desde 1960. O número de mulheres ricas cresce duas vezes mais rápido que o número de homens ricos à medida que os baby boomers envelhecem e as mulheres continuam a desfrutar de uma vida mais longa do que os homens. De fato, até 2030, as mulheres devem controlar dois terços de toda a riqueza nos EUA.

É importante e necessário entender claramente: dado seu crescente poder financeiro, os valores que as mulheres carregam moldarão como a riqueza está sendo criada, mobilizada e transmitida para a próxima geração. E cada vez mais, os estudos mostram que as mulheres valorizam os princípios por trás do investimento em ESG.

De acordo com a RBC Wealth Management, 2021, as clientes mulheres são quase duas vezes mais propensas do que seus colegas homens a sustentar a relevância – para as empresas em que investem – na integração dos fatores ESG em suas políticas e decisões. São mais propensas a priorizar o impacto ESG ao considerar em quais empresas ou fundos investir, enquanto os clientes do sexo masculino são muito mais propensos a priorizar o desempenho financeiro.

A visão estratégica da mulher só enfatiza que o investimento em ESG proporciona desempenho financeiro e impacto. Além disso, a performance das mulheres nos anos iniciais da década de 2020 ajudará a eliminar a preocupação dos investidores de que investir em ESG significa abrir mão de retornos, o que tem sido uma barreira generalizada ao crescimento de produtos ESG.

É bom que se diga que o investimento ESG incorpora tanto as métricas financeiras tradicionais quanto os fatores ambientais, sociais e de governança.

À guisa de ilustração, os fatores ambientais incluem o uso da matriz energética e água, as emissões de carbono, a reciclagem e a produção de resíduos.

Os fatores sociais incluem como o negócio trata seu pessoal, clientes, fornecedores, comunidade e todas as partes interessadas. Inclui igualdade de remuneração e progressão, bem como gênero, idade e diversidade étnica.

Os fatores de governança levam em consideração os líderes – integridade, competência, experiência e honestidade – além da diversificação do conselho de administração. O compromisso com a transparência é a premissa do negócio.

Embora o reflexo de controlar o que divulgam esteja vivo e bem alinhado com os princípios éticos do negócio, as empresas estão sendo cada vez mais pressionadas e incentivadas a divulgar mais, especialmente os números que não as fazem parecer boas.

A presença e a liderança das mulheres na direção e nas equipes de sustentabilidade corporativa têm acelerado o compartilhamento das informações e dados, priorizando a mitigação dos impactos ambientais negativos, bem como fortalecendo a diversidade corporativa.

Manter a diversidade é o novo coração do negócio. Percebam os benefícios tangíveis da diversidade em uma organização – melhor produtividade, criatividade e inovação, foco no cliente – para citar alguns. O coringa está nesses detalhes, nas notas de rodapé e nas estrelas do ESG, as mulheres.


Haroldo Rodrigues é sócio-fundador da investidora in3 New B Capital S.A. Foi professor titular e diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Universidade de Fortaleza e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Ceará.